O Que Muitos Ainda Não Compreenderam Sobre o Trauma

Publicado por Eliana Caldatto em

Quando ouvimos a palavra trauma, geralmente pensamos em grandes acontecimentos.

Pensamos em abuso.

Violência.

Abandono.

Perdas significativas.

Acidentes.

Rejeições profundas.

Durante muito tempo, acreditamos que o trauma estava no acontecimento.

Mas as pesquisas mais recentes sobre desenvolvimento humano, neurobiologia do trauma e teoria do apego vêm nos mostrando algo muito mais profundo.

O trauma não é apenas o que aconteceu.

O trauma é o que aconteceu dentro da pessoa por causa do que aconteceu.

Essa compreensão, amplamente difundida pelo médico e pesquisador Gabor Maté, transforma profundamente a maneira como entendemos o sofrimento humano.

Porque duas pessoas podem viver experiências semelhantes e desenvolver respostas completamente diferentes.

Duas crianças podem atravessar a mesma situação.

Uma pode integrar a experiência e seguir adiante.

A outra pode carregar suas marcas por décadas.

A pergunta, então, deixa de ser apenas:

“O que aconteceu?”

E passa a ser:

“Como aquela experiência foi vivida?”

O Trauma Não Está Apenas no Evento

Quando falamos sobre trauma, frequentemente olhamos para os fatos.

Mas o cérebro não registra apenas fatos.

Ele registra experiências.

Ele registra emoções.

Ele registra sensações corporais.

Ele registra o significado que aquela experiência teve para quem a viveu.

Uma criança não avalia uma situação da mesma forma que um adulto.

Ela depende dos vínculos ao seu redor para compreender o mundo.

Depende dos adultos para sentir segurança.

Depende do olhar do outro para aprender quem é.

Depende da presença de alguém para regular emoções que ainda não consegue regular sozinha.

Por isso, aquilo que traumatiza não é necessariamente a dor.

É a dor vivida em solidão.

O Cérebro Foi Construído Para o Vínculo

A neurociência do desenvolvimento demonstra que o cérebro humano se organiza dentro das relações.

Não nascemos preparados para lidar sozinhos com o medo.

Com a tristeza.

Com a raiva.

Com a insegurança.

Precisamos de alguém que nos ajude a atravessar essas experiências.

Precisamos de alguém que diga:

“Eu estou aqui.”

“Você está seguro.”

“Eu vejo o que você está sentindo.”

“Vamos passar por isso juntos.”

Esse processo é chamado de co-regulação emocional.

É através dele que o sistema nervoso aprende que experiências difíceis podem ser suportadas.

Quando essa presença existe, a dor pode ser processada.

Quando ela falta, a dor permanece armazenada no organismo.

As Pequenas Ausências Que Também Ferem

Quando pensamos em trauma, costumamos procurar grandes eventos.

Mas muitas vezes as feridas mais profundas surgem de ausências silenciosas e repetidas.

A criança que chorou e ouviu que era exagerada.

A criança que sentiu medo e ouviu que precisava ser forte.

A criança que precisava de acolhimento e encontrou críticas.

A criança que precisava ser vista e aprendeu a não incomodar.

A criança que percebeu que suas emoções não encontravam espaço dentro da família.

Nenhuma dessas situações parece extraordinária quando observada isoladamente.

Mas vividas repetidamente ao longo do desenvolvimento, podem deixar marcas profundas.

Porque a mensagem recebida não é apenas sobre aquele momento.

A mensagem recebida é:

“Os seus sentimentos não importam.”

“Você precisa lidar com isso sozinho.”

“Não existe espaço para quem você realmente é.”

A Dor Sem Testemunha

Talvez uma das contribuições mais importantes de Gabor Maté seja a compreensão de que o trauma não está necessariamente na experiência dolorosa.

Está na ausência de suporte diante da experiência dolorosa.

O que fere profundamente uma criança não é apenas sentir medo.

É sentir medo sozinha.

Não é apenas sentir tristeza.

É sentir tristeza sem acolhimento.

Não é apenas sentir vergonha.

É sentir vergonha sem reparação.

Não é apenas sentir raiva.

É não encontrar espaço para expressar essa emoção de maneira segura.

O trauma é, muitas vezes, uma experiência de desconexão.

Desconexão dos outros.

E, gradualmente, desconexão de si mesmo.

Quando a Sobrevivência Vira Personalidade

A criança não pode deixar de sentir.

Mas pode aprender a se adaptar.

Pode aprender a esconder emoções.

Pode aprender a agradar.

Pode aprender a controlar.

Pode aprender a não precisar de ninguém.

Pode aprender a ser perfeita.

Pode aprender a nunca demonstrar vulnerabilidade.

Essas adaptações são inteligentes.

Elas ajudam a sobreviver.

O problema é que muitas vezes permanecem ativas na vida adulta.

E aquilo que começou como uma estratégia de proteção passa a ser confundido com personalidade.

O adulto excessivamente independente talvez tenha sido a criança que descobriu que não podia contar com ninguém.

O perfeccionista talvez tenha sido a criança que acreditou que precisava ser impecável para merecer amor.

O controlador talvez tenha sido a criança que cresceu em um ambiente imprevisível.

A pessoa que busca aprovação constantemente talvez esteja tentando encontrar hoje o olhar que faltou ontem.

Uma Nova Pergunta Para a Clínica

Durante muito tempo, a pergunta central da psicologia foi:

“O que aconteceu com você?”

Essa continua sendo uma pergunta importante.

Mas talvez ela não seja suficiente.

Uma pergunta ainda mais profunda seria:

“O que aconteceu dentro de você quando aquilo aconteceu?”

E talvez exista outra ainda mais transformadora:

“O que você precisava receber naquele momento e não recebeu?”

Porque muitas vezes o sofrimento não nasce apenas da experiência vivida.

Ele nasce da ausência de um encontro humano capaz de ajudar aquela experiência a ser integrada.

A Cura Acontece no Encontro

Se o trauma nasce na desconexão, a cura acontece na reconexão.

Ela acontece quando aquilo que um dia foi vivido em solidão encontra presença.

Quando aquilo que foi silenciado encontra escuta.

Quando aquilo que foi rejeitado encontra acolhimento.

Quando aquilo que foi invisível encontra um olhar capaz de reconhecê-lo.

Talvez essa seja uma das funções mais nobres da relação terapêutica.

Não mudar o passado.

Não apagar a dor.

Mas oferecer, no presente, algo que faltou quando a ferida foi criada.

Um espaço seguro.

Uma presença reguladora.

Um vínculo confiável.

Uma experiência emocional corretiva.

Um lugar onde o sistema nervoso possa finalmente aprender algo novo:

“Desta vez, eu não preciso passar por isso sozinho.”

E Você?

Quando olha para sua própria história, quais experiências ainda carregam marcas emocionais?

Quais momentos da sua vida precisaram ser enfrentados sem apoio suficiente?

E quais partes de você ainda esperam encontrar o acolhimento que faltou naquele momento?

Talvez a cura não comece quando encontramos todas as respostas.

Talvez ela comece quando deixamos de enfrentar nossas dores em silêncio.

Sobre a autora

Eliana Maria Caldatto é psicóloga clínica há mais de 30 anos, terapeuta sistêmica, psicogenealogista e fundadora do Pedra Lua – Núcleo de Terapias.

Atua com Psicoterapia, Constelação Familiar, Psicogenealogia, Metagenealogia e outras abordagens integrativas, auxiliando pessoas a compreenderem suas histórias, transformarem padrões emocionais e construírem relações mais saudáveis consigo mesmas e com a vida.


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